Artéria umbilical única: devo me preocupar?

Artéria umbilical única: devo me preocupar?

O cordão umbilical tem a função de conectar a placenta ao feto. Habitualmente é composto por três vasos, duas artérias e uma veia. O sangue que corre dentro desses vasos é do feto, sendo que as artérias o levam no sentido feto-placenta, e a veia no sentido placenta-feto. Os vasos são envolvidos por uma substância gelatinosa que evita que estes sejam comprimidos pelo feto, chamada de Geléia de Wharton. Os vasos e a Geléia de Wharton são revestidos por fina membrana: o amnio. Tem entre 50 e 70 cm de comprimento. Após o nascimento e queda do coto do cordão, permanece uma cicatriz, o umbigo.

Em 1 a cada 200 nascimentos, o cordão umbilical pode apresentar somente uma artéria, sendo nestes casos chamado de artéria umbilical única (AUU).

Estudos realizados na década de 90, observando bebês no segundo e terceiro trimestres, encontraram 10% de alterações cromossômicas associadas à AUU, sendo a Trissomia 18 a mais frequente. Entretanto, na maioria destes casos, eram identificadas malformações estruturais nos bebês além da AUU.

Posteriormente, Kypros Nicolaides (1) realizou estudo no Reino Unido demonstrando que quando encontrada a AUU, é necessário procurar por outros defeitos fetais. Se estes forem encontrados, deve ser recomendada a investigação genética, pois nestes casos existe forte associação com síndromes cromossômicas. Se for um achado isolado, não indica risco aumentado.

Com relação à presença de malformações estruturais, foi realizada pesquisa na Noruega com mais de 900 mil gestações (2), indicando aumento da prevalência de malformações gastrointestinais (principalmente atresia/estenose de esôfago ou do ânus), anormalidades genitourinárias (agenesia renal), e malformações cardíacas nos fetos com artéria umbilical única. Estes achados indicam a importância em manter o cuidadoso acompanhamento ultrassonográfico pré-natal nestes casos, assim como realizar os exames com especialistas em Medicina Fetal que têm o treinamento específico para buscar alterações fetais.

Com relação ao crescimento fetal, foi realizada metanálise (3) que não encontrou forte associação com restrição de crescimento (baixo peso fetal) e mortalidade perinatal aumentada em pacientes que apresentam AUU como um achado isolado (sem associação com malformações ou síndromes).

Com base nos dados publicados, concluímos que o achado de artéria umbilical única indica necessidade de uma avaliação e seguimento detalhados da anatomia fetal. Se nenhum outro achado patológico for encontrado, provavelmente o desfecho perinatal será semelhante ao do feto que apresenta o cordão umbilical com três vasos.

(1) Isolated single umbilical artery and fetal karyotype
T. Dagklis, D. Defigueiredo, I. Staboulidou, D. Casagrandi, K. H. Nicolaides
Ultrasound in Obstetrics Gynecology, 2010
(2) Single umbilical artery and risk of congenital malformation: population-based study in Norway
C. Ebbing, J. Kessler, D. Moster, S. Rasmussen
Ultrasound in Obstetrics Gynecology, 2019
(3) Relationship of isolated single umbilical artery to fetal growth, aneuploidy and perinatal mortality: systematic review and meta-analysis
B. J. Voskamp, H. Fleurke-Rozema, K. Oude-Rengerink, R. J. M. Snijders, C. M. Bilardo, B. W. J. Mol, E. Pajkrt
Ultrasound in Obstetrics Gynecology, 2013

Drª Andrea Maria Andraus Dantas, Especialista em Medicina Fetal: CRM 12791 e RQE 13600.

 

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